sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Reencontrar, reconhecer, amar...

É... já faz quatro anos!! e parece q foi ontem... parece que foi ontem que aquele senhor simplesmente cativante, de 81 anos, nos disse que deveríamos ser fortes, pois, no ano seguinte ele não estaria mais conosco... principalmente para receber os foliões de reis, que chegavam todo ano e faziam a maior festa, com cruz de rosa no quintal e briga pelo dinheiro.. aí ele dizia "joga a moeda fio!" "esconde lá!" "olha só como ele faz!" e segurávamos a bandeira.. ele era muito devoto, devoto do Divino, de Nossa Senhora, de São João Batista... depois tinha almoço,um almoção, porque na casa do senhor João Silvério da Silva nunca teve miséria, não é à toa que seus onze filhos são todos um pouquinho acima do peso... rs...

Me lembro quando ele colocava sempre mais um pouquinho de comida em nosso prato, isso quando já tínhamos terminado, e dizia "come fia, faz bem"...rsrs... quem vê poderia até julgar como falta de educação, mas Não... era excesso de proteção, de mimo, e também porque ele gostava de brincar , de surpreender "come mais um pouquinho francinha!" "brigada vô, mas eu coloquei aparelho, meu dente dói quando como" "- Mas a Karina tá aí ó, ela tem os dente bão!" rs.. ahh como eu adoravaa as suas brincadeiras, as piadas, as pegadinhas! qual neto não se lembra da famosa: "fala Butucatu Cutia não", e todo mundo sempre errava! a gente criança errava e depois de grandes ficávamos observando a reação das outras crianças, será que acertariam? ateh gente grande errava!! "eee bacataré" rs... E as histórias de terror que ele contava numa roda em volta da fogueira, e eu durmia cedinho pq tinha medo... rs.. ele também tinha mania de espetar a gente de suspresa com um palito de dente... êee vôoo... E quando ele perguntava "cadê a sobremesa?" (era cadê o palito de dente? rs) eram gestos simples como este que nos traziam alegria.. ele fazia um estalo com a boca pra brincar com as crianças, difícil de explicar aqui... aquela voz meio rouca, aveludada e ao mesmo tempo estridente, sibilante... ai que saudade daquela voz! aquele sotaque metade mineiro metade paranaense...e a risada inconfundível... A gente tinha que falar alto com ele, porque não ouvia direito, e sempre ficávamos na dúvida "será que ele escutou?", às vezes ele não escutava e fingia entender, noutras, vai saber..rs

Nosso Vô João sempre foi o orgulho da família.. quando nos perguntavam, quem eh vc? enchíamos (e enchemos) a boca pra dizer "Neto(a) do João Silvério" ... Ele era muito conhecido, um homem público, mesmo depois de ter "deixado" a política. Foi vereador, um dos mais votados e de coração puro que conheci, muito diferente da maioria... mas ele foi cassado, foi sim!! e porque era semi-analfabeto.. entretanto provou que era capaz, que era uma pessoa honrada... saiu levantado da câmara pelos amigos, fotografia na primeira página do jornal e reportagem até em rede nacional... e todos cantando "caminhando e cantando e seguindo a canção..." nosso grande orgulho, sempre muito querido..

Era campeão de baralho... dava um trabalhinho pra minha avó simm devido a isso, mas nós netos nos orgulhávamos de seus troféus e quem é que não aprendeu a jogar uma canastrinha com ele...Em tudo tentávamos nos espelhar nele! na sua coragem, nas suas brincadeiras, na sua alegria. Aos 80 anos, uma grande surpresa! Camisetas da família Silva em homenagem às 80 primaveras do Sr. João Silvério.. ônibus fretado, gente de toda a parte, homenagens, muita festa! Ele acordou assustado naquele dia, tadinho, mas valeu a pena.. =)

Contava histórias, algumas histórias eram de pescador, era um Grande pescador... assim como no conto de Guimarães Rosa, é como se ele estivesse na terceira margem do rio.. e o esperamos encontrá-lo ainda um dia, porque esta margem existe... me lembro de um dia tentar pescar com ele, mas só perdia minhas iscas...rs... pobre de mim, pobrezinha perto deste grande homem.. e eu pensava "como ele consegue?" mas ele era o Vô João (ou Vô Jão, como dizíamos pequeninhos)... 

Gostava muito de viajar também, visitar os parentes... e a gente passava maior "emoção", pra não dizer medo, porque andava só em média de 120 km/h...rs

Se eu fosse dizer todas as coisas que lembro dele, não sairia mais daqui... infelizmente a nossa alegria foi interrompida por aquela doença, aquela que tem o mesmo nome do meu signo, não menciono aqui em consideração a ele (pois as pessoas mais idosas não gostavam de pronunciar seu nome)... ele foi preservado durante um tempo de saber o mal que sofria, mas durante aqueles 5 meses, no fundo no fundo sabia... e até em seus últimos momentos, foi um grande herói... em seus últimos dias, fingia que comia pra fazer companhia aos parentes e amigos, ainda sorria de vez em quando, brincava com as crianças, e um dia, quando não estava dopado dos remédios disse "cêis têm que sê forte" "- Ahhh pai, mas e a gente não é? o Senhor que nos ensinou a ser assim, lembra quando a gente perdeu a mãe?" "é fia, mas tinha eu" Me lembro de me contarem isso como se fosse ontem... E, na mesma época, tocava aquela música nas rádios do Jota Quest, ele não ouvia, mas era como se fosse pra ele "ei dor, eu não te escuto mais, você não me leva a nada..." 

Me lembro como se fosse ontem, em suas últimas horas no hospital, a minha tia dizendo "diz pro vô que ele pode ir bem, que nós vamos ficar bem aqui..." ai que difícil! e tinha que dizer ainda segurando o nó na garganta, "vô, a gente te ama muito, e vamos guardar tudo aqui com a gente no coração, seus ensinamentos, a sua alegria, vamos sempre lembrar do senhor... a gente vai ficar bem vô" e eu engasgo, gaguejo, seguro, enxugo as lágrimas que insistem em cair! 

Se nós da família temos hoje pelo menos um pouco dos sentimentos como a fortaleza, a coragem, a alegria, a vontade de mudar o mundo, a simplicidade, a amizade, o amor, a fé.. tudo isso é herança... quanta riqueza!

A gente ainda fica meio triste, inquieto e com um apertozinho no coração (que se chama saudade) quando chega o dia 7 de fevereiro, assim como o 23 de agosto e o 28 de junho... mas sabemos que ele foi "pra onde tem Sol", e foi digno de um verdadeiro herói, ainda preocupado com as pessoas que ficariam e com o seu povo... está agora ao lado da dona Nair (nossa Vó Nica) pra dar continuidade aos mais de 50 anos de união, está também junto dos anjos, santos, Nossa Senhora... Deus, aí eu sei que ele está feliz... acredito que o céu estava precisando de mais um pouquinho de alegria, de histórias, de novas ideias ou até mesmo ideais, de mais alguém pra viver.. =)